sábado, 23 de julho de 2011

Amy

Tão cedo para partires, Amy...
Tanta coisa, tanta gente tão ruim no mundo, e tu vais...
Mais uma vítima da incoerência do sistema, que sempre exige mais, pede mais, nem que este mais não possa ser atingido, comprado, possuído.
Acumular o que nem conseguem usufruir, ter, possuir. Insustentável para quem não consegue endurecer o espírito, e ou se conformar, aderir ou combater.
Como tantas outras inteligências, tantos talentos, tanta criatividade, soterrada pela droga. Que, por sinal, rende muito, muito, mas muito mesmo dinheiro a quem fabrica e vende. E, claro, não usa.
Adeus, Amy.
Genial, brilhante, poderosa. E tão frágil, que tão cedo foste...

sexta-feira, 22 de julho de 2011

O moderno reacionário é a porta de entrada do velho fascismo

Não costumo postar textos de outros autores. Mas este, em especial, merece divulgação. Obrigada, amigo Flávio, pelo tesouro enviado!

Se você não entendeu a piada de Rafinha Bastos afirmando que para a mulher feia o estupro é uma benção, tranquilize-se. O teólogo Luiz Felipe Pondé acaba de fornecer uma explicação recheada da mais alta filosofia: a mulher enruga como um pêssego seco se não encontra a tempo um homem capaz de tratá-la como objeto.

Por Marcelo Semer*

Se você também considerou a deputada-missionária-ex-atriz Myriam Rios obscurantista ao ouvi-la falando sobre homossexualidade e pedofilia, o que dizer do ilustrado João Pereira Coutinho que comparou a amamentação em público com o ato de defecar ou masturbar-se à vista de todos?

Nas bancas ou nas melhores casas do ramo, neo-machistas intelectuais estão aí para nos advertir que os direitos humanos nada mais são do que o triunfo do obtuso, a igualdade é uma balela do enfadonho politicamente correto e não há futuro digno fora da liberdade de cada um de expressar a seu modo, o mais profundo desrespeito ao próximo.

O moderno reacionário é um subproduto do alargamento da cidadania. São quixotes sem utopias, denunciando a patrulha de quem se atreve a contestar seu suposto direito líquido e certo a propagar um bom e velho preconceito.

Pondé já havia expressado a angústia de uma classe média ressentida, ao afirmar o asco pelos aeroportos-rodoviárias, repletos de gente diferenciada. Também dera razão em suas tortuosas linhas à xenofobia europeia.

De modo que dizer que as mulheres - e só elas - precisam se sentir objeto, para não se tornarem lésbicas, nem devia chamar nossa atenção.

Mas chamar a atenção é justamente o mote dos ditos vanguardistas. Detonar o humanismo sem meias palavras e mandar a conta do atraso para aqueles que ainda não os alcançaram.

No eufemismo de seus entusiasmados editores, enfim, tirar o leitor da zona de conforto.

É o que de melhor fazem, por exemplo, os colunistas do insulto, que recheiam as páginas das revistas de variedades, com competições semanais de ofensas.

O presidente é uma anta, passeatas são antros de maconheiros e vagabundos, criminosos defensores de ideais esquerdizóides anacrônicos e outros tantos palavrões de ordem que fariam os retrógrados do Tea Party corarem de constrangimento.

Não é à toa que uma obscura figura política como Jair Bolsonaro foi trazida agora de volta à tona, estimulando racismo e homofobia como direitos naturais da tradicional família brasileira.

E na mesma toada, políticos de conhecida reputação republicana sucumbiram à instrumentalização do debate religioso, mandando às favas o estado laico e abrindo a caixa de Pandora da intolerância, que vem se espalhando como um rastilho de pólvora. A Idade Média, revisitada, agradece.

Com a agressividade típica de quem é dono da liberdade absoluta, e o descompromisso com valores éticos que consagra o "intelectual sem amarras", o cântico dos novos conservadores pode parecer sedutor.

Um bad-boy destemido, um lacerdista animador de polêmicas, um livre-destruidor do senso comum.

Nós já sabemos onde isto vai dar.

O rebaixamento do debate, a política virulenta que se espelha no aniquilamento do outro, a banalização da violência e a criação de párias expelidos da tutela da dignidade humana.

O reacionário moderno é apenas o ovo da serpente de um fascismo pra lá de ultrapassado.

*Marcelo Semer é Juiz de Direito em São Paulo. Foi presidente da Associação Juízes para a Democracia. Coordenador de "Direitos Humanos: essência do Direito do Trabalho" (LTr) e autor de "Crime Impossível" (Malheiros) e do romance "Certas Canções" (7 Letras). Responsável pelo Blog Sem Juízo.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Margarida Alves

12 de agosto de 1983, 18 horas.
A mando de grileiros de Alagoa Grande, Paraíba, Margarida Maria Alves, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da região é brutalmente assassinada na presença de marido e filho.
Desde 1973, Margarida, na presidência do STR, já havia movido mais de setenta ações trabalhistas buscando direitos negados por usineiros.
Dos mandantes, cinco, dois estão foragidos, dois foram julgados e liberados e um já morreu.
Desde 2000 são feitas manifestações e marchas em Brasília, apresentando pautas com suas reivindicações.
Margarida serviu como inspiração para a organização de milhares de mulheres, trabalhadoras rurais e urbanas.
Este ano,  em agosto, mulheres trabalhadoras de todo o Brasil estarão novamente em Brasília lembrando a líder que perdeu a vida lutando pelos direitos de trabalhadores e trabalhadoras.
Sua morte cria no Brasil outro símbolo político dos mártires que deram sua vida em busca de uma vida justa e uma sociedade melhor.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Os Dias Inventados.

Tem dia das mães. dos pais. da criança. Do improvável acerto do nascimento de Cristo, da páscoa, da criança, da avó, da sogra. Dia de qualquer coisa que possa render vendas.
Começou assim: Primeiro, com e-mails. Depois, amigos reunindo em bares e restaurantes. Agora, já se fala em presentinhos para os amigos mais próximos.
Do que não é capaz o capitalismo... De transformar uma das coisas mais belas do mundo em lucro.
Não sei os outros, mas tenho eu, pessoalmente, milhares de conhecidos, centenas de conhecidos mais próximos, e alguns, poucos, realmente amigos.
Amizade não é conhecer alguém, compartilhar um bar ou noitada, ou interesse comum.
Amizade é algo muito sério. Amizade é algo muito profundo, que independe da frequência de encontros, mas que pressupõe intimidade, conhecimento, cumplicidade. Amigos podem ficar distantes, mas sabem que no reencontro nada mudou. Amigos são aqueles que nos são leais, não fiéis nem subservientes.
Amigos, amigos mesmos, conta-se nos dedos.
São aqueles e aquelas para quem não precisamos passar e-mails nem presentear no dia inventado como o dia do amigo.
Mas, vamos combinar, o capital consegue lucrar até com um dos sentimentos mais sérios que conhecemos: A verdadeira amizade.

sábado, 16 de julho de 2011

As mulheres nos primeiros tempos de Brasil



E o Brasil é “descoberto”

Quando, em 1500, os portugueses invadem o continente recém “descoberto” e para cá enviam os degredados, criminosos e aventureiros, certamente pouquíssimas mulheres havia entre eles. Os homens que para cá vieram foram responsáveis por estupros, raptos e inúmeras violências contra índias, o que resultou na imensa miscigenação do povo brasileiro. O território só começou a ser efetivamente colonizado em meados do século XVI, e a sociedade que havia se instalado aqui era nada semelhante à metrópole. O número de casamentos formais não chegava a 20% e acontecia preferencialmente entre classes abastadas, de forma a garantir o patrimônio das famílias. Não havia obrigatoriedade de indissolubilidade dos “casamentos”, e com isto estabelecia-se uma maternidade informal, quase matrilinear, uma vez que o cuidado com os improdutivos voltava a ser coletiva: mães, avós, tias, vizinhas, todas compartilhavam do cuidado e da educação de todas as crianças. As famílias estabelecidas formal ou informalmente sofriam constantes rupturas causadas pela necessidade da interiorização, desbravamento e ocupação de territórios e da caça de índios para a escravidão. Isto fazia com que os agrupamentos de mulheres que permaneciam nos povoados assumissem  outros filhos,  de eventuais novos companheiros ou  órfãos, sem diferenciação das outras crianças.antes que as malfadadas rodas de enjeitados fossem instalados. 
A chegada dos mandatários portugueses e do clero, com a finalidade de instalar a dominação portuguesa e moralizar a colônia trouxe com ela toda a carga de preconceitos da Europa medieval, ainda reinante no Portugal da época. A primeira providência foi a remodelação do papel da mulher e a instituição do casamento, instituindo altas taxas para os concubinatos, enquanto os preços dos casamentos eram simbólicos. As uniões pré-maritais eram sabidas, embora não admitidas; num momento em que o povoamento da colônia era fundamental, a fecundidade era condição para o matrimônio. Só que inteiramente atribuída à mulher, uma vez que a própria medicina avalizava a idéia. Por isto o sexo antes do matrimônio, tolerado discretamente  quando efetivamente resultante em gravidez. Caso a gravidez não ocorresse, dependendo do nível sócio-econômico da “noiva”, o casamento poderia ocorrer, mas sem a obrigatoriedade de sexo, ficando neste caso o homem tacitamente “liberado” para o sexo e procriação com outras mulheres, ocorrendo algumas legitimações de paternidade para garantia da transmissão de patrimônio.

Durante o primeiro período da ocupação européia no Brasil, e devido à precariedade de condições, as mulheres ocupavam-se de tarefas ditas masculinas. Com os homens passando longos períodos longe dos povoados e vilas, coube a elas providenciar condições de sobrevivência. Eram comuns mulheres ferreiras, caçadoras, criadoras, agricultoras. Assim como cabia a elas o cuidado com os improdutivos: Crianças, idosos, doentes. E desta forma, desenvolveram em contato com índios escravizados a medicina primitiva, tornando-se parteiras, enfermeiras. Raríssimas  mulheres eram alfabetizadas, e estas tentavam repassar os parcos conhecimentos. Enquanto os homens da colônia se embrenhavam Brasil à dentro, foram estas mulheres q1ue administraram as vilas, criaram seus e outros filhos, resolviam problemas, e muitas vezes pegavam nas rudimentares armas para proteger suas cidadelas.

Quando os homens retornam do interior, a exemplo dos europeus que sobreviveram às Cruzadas, reassumem seus papéis. A mulher no Brasil colonial, ser submetida à opressão masculina volta-se para o domínio que lhe é reservado: torna-se parteira, curadora, cuidadora. A ela foram destinadas as tarefas da casa, de filhos, e, dependendo das classes sociais, desenvolver em paralelo o serviço de agricultora, artesã, sem remuneração, uma vez que assumia empreitadas tratadas pelos maridos.  Confinada ao lar, passa a desenvolver a observação cuidadosa da natureza, assimilando conhecimentos específicos sobre plantas, ervas, doenças; Enfim, tudo o que requeria observação e persistência. Desta forma, acumulando conhecimentos fundamentais para a sobrevivência, Data deste tempo a institucionalização dos prostíbulos na colônia, tolerados por fatores como a preservação da moralidade cristã e pelas pesadas propinas que pagavam para as autoridades que lhes faziam vista grossa. Com a crescente influência do clero, nos estertores da Inquisição, a moralidade religiosa desestrutura as famílias matrilineares ainda existentes e impõe sua pesada carga moral.
A partir daí, institucionalizam-se também na colônias duas figuras femininas simbólicas: a mulher-mãe, virtuosa, casta (que se entrega para cumprir seu papel, mas sem usufruir do prazer pecaminoso), e da prostituta, a mulher, sexuada, alegre, sempre disposta e disponível. Desde que não fossem suas filhas, irmãs ou parentas. 

quinta-feira, 14 de julho de 2011

O Olhar para Mulheres

Indescritível a alegria de atualizar a conjuntura. Trabalhar no abrigo acaba por nos exigir uma dedicação quase que interminável
Mas hoje, conversando com minha categoria, discutimos sobre a III Conferência de Políticas para Mulheres e a Marcha das Margaridas. Lembrando,. claro, Margarida Alves, camponesa assassinada ao defender o direito à terra.
E, claro, da importância dos dois eventos.
A III Conferência escolhe, na edição municipal as delegadas para a etapa estadual, e lá, para a nacional. Certa Dilma, quando diz que só se dará fim à miséria no Brasil acabando com a miséria e a opressão das mulheres.
Que sabidamente ganham menos, trabalham mais, sofrem mais assédio moral e sexual, recebem as tarefas mais precarizadas, e ainda ganham, de presente, a dupla ou tripla jornada de trabalho.
Lembrando a primeira data, aqui em Porto Alegre acontece em 19 e 20 de agosto.
para lembrar do assunto, Joyce.

domingo, 10 de julho de 2011

Dos tempos da Osvaldo em 80

Acho que nasci querendo tocar violão, mas por volta dos 12 ou 13 anos ganhei um de presente de natal, e aprendi alguns acordes. Pedia para um ou outro que soubesse, e fui tocando. Teve um tempo que tocava quatro, cinco horas por dia. Mas nunca fui uma "violonista".  Tocava algumas coisas, treinava acordes "difíceis". Lembro de ter entortado um dedo, uma vez. Tive que engessar. Acho que era da insistência.
Tinha meus próprios critérios para definir os acordes: bons, fáceis, bonitos, chatos, impossíveis de fazer, etc.
Pela metade da década de 70 apareceu uma revista chamada VIGU - Violão, Guitarra. Foi indescritível, a descoberta da pólvora, da roda, algo assim: Ali estavam os acordes, os sustenidos, os dissonantes. Com certeza, uma de minhas maiores descobertas. A música se tornando algo decifrável, embora nem tão acessível.
Como sempre gostei de escrever, comecei a juntar letras nas músicas. Coisas bem fora do senso comum: Acho que nem sei direito o que rolava de comercial na década de 60: Sei que, sabiamente, ao invés de assistir Jovem Guarda, quando criança, meu pai  sintonizava a antiga e pesada TV P&B, daquelas que tinham portinha para fechar quando desligada, O Fino da Bossa. Vai daí que em 70, em vez dos Tell me Once Again, eu ouvia Caetano, Chico, Pink Floyd e Yes.
Durante os anos 80, a música de garagem no RS permitiu várias tentativas de bandas. E lá estávamos nos.
Primeiro com a Merlin Morreu, Ricardo Barão, Ângela (os dois já se foram, que saudades...), Paulo, Maurício e eu. Na guitarra. Rock anos 50, um pouco de crítica social, muito deboche. A Av. Osvaldo Aranha, Ocidente e Fim de Século ferviam. Os punks chegaram por aqui com quase uma década de atraso, neonazistas que não sabiam nada de nazismo, metaleiros... Enfim, nesta época o Bom Fim tentava sepultar os raros sobreviventes aspirantes a hippies, que nem bem sabiam o que tinha sido o movimento, mas gostavam da estética do movimento. Enfim, pouca gente entendia o que acontecia, mas muita gente participava e levava tudo isto muito a sério.
Depois, Daskrimi. Muito boa. Os acordes de Fabriano Rocha  no baixo, ah, nunca vi alguém tocar baixo como Fabri. A guitarra de Luki, quase diáfana. Dois bateristas: Cabeleira e Luciano.
Nossa música era uma cruza de quatro diferenças. Era boa, muito boa. Nada comercial. Mas fizemos bons shows. E era um prazer, um delírio toca, ensaiar. As criações eram coletivas, a partir de alguma letra, geralmente escrita por mim. Era tudo ao mesmo tempo, todos montando a música.
Depois, a vida cobra opções, tempo, sobrevivência. E era, como é ainda, muito difícil viver de música.
Coisas e anos passam, passam, e os contatos se perdem.
Pois incrivelmente, quase ao mesmo tempo, encontramo-nos todos os Daskrimi.
Aguardem os scanners do portfólio. Esperem pela digitalização da fita-ferro, coisa das modernérrimas na época.
Por estes dias, devemos nos encontrar. Todos, ou quase. Espero todos.
Para completar, falta encontrar Caio Gomes e Marcelo Fornazieri. Ah, e, claro, o Jéferson, da Atrack, a outra Ângela, nossa produtora.
Se este povo se juntar outra vez, será certamente um dos melhores e mais importantes momentos de toda a minha vida, por toda a minha vida.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Chico Science

Para  mim, um gênio que se foi cedo demais. Como faz falta sua ironia, sua poesia, seu maracatu rock...
Saudades deste poeta que enxergou e cantou o Brasil-nordeste como poucos.
Para vocês, Chico Science!

domingo, 3 de julho de 2011

O que querem os moradores de rua

Minha casa fica a algumas quadras de um dos maiores postos de atendimento do SUS em Porto Alegre. E a poucas  quadras de ambos, o segundo maior cinturão de miséria da cidade, a Grande Cruzeiro, formada por mais de trinta vilas ou ocupações. Nas décadas de 80 em 90, ali foi forte o movimento popular pela regularização fundiária, a resistência contra despejos sumários, por água, luz, escolas, creches, transporte, enfim, pelo direito de morar e viver.
Durante estes anos de militância no movimento comunitário lembro de inúmeras situações, participei de ocupação, convivi com os moradores que chegavam do interior ou eram despejados de outras ocupações. Lembro da solidariedade daqueles que encabeçavam as lutas para não deixar ou famílias ou indivíduos ao relento. Neste período, não lembro de absolutamente nenhum morador de rua na região. Conhecíamos alguns moradores que se deslocavam para o centro da cidade para mendigar, mas retornavam para suas casas.
Desde o final da década de 90, envolvida muito mais com o movimento sindical, mesmo morando próximo à Cruzeiro, diminuí o contato com os moradores, com os dirigentes comunitários da região. Hoje, muitos deles já não se envolvem tanto nas lutas. A militância comunitária hoje tem entre seus líderes pessoas sérias e comprometidas, mas tem também os militantes profissionalizados para manter fechados os currais eleitorais partidários. E tem o tráfico, em muitas situações ocupando o espaço que o poder público deixa em aberto, fazendo o trabalho assistencial que os governos não fazem.
Mesmo com os avanços do Governo Lula, entretanto, desde o final da década de 90 formaram-se na região pequenos núcleos de moradores de rua nesta região. São grupos de oito, dez pessoas, majoritariamente homens, alguns jovens, outros mais velhos. Costumam catar lixo, e com a falta de local para armazenagem, ocupam esquinas, parte das raras praças. 
Um grupo em especial me chama atenção, por fazer parte do trajeto de minhas (poucas) caminhadas: O grupo que ocupa um pequeno espaço de calçada atrás do prédio do SUS. Em sua maioria são homens de meia-idade, vejo algumas vezes uma mulher entre eles.. Amontoam lixo, e alguns moradores da vila próxima ainda despejam lá seus lixos em dias de não-coleta.
Geralmente bebem, o copo coletivo. Não se referem a ninguém que passe por lá, não pedem nada. Revezan duas cadeiras e um banco, alguns colchões empilhados, sacos de lixo como de armário para os poucos pertences. Caixas de madeira empilhadas. E lixo, muito lixo à volta. Que eles separam, carregam até o comprador num carrinho de coleta e outro de supermercado.
Dia destes parei para conversar com eles. Educadamente, demonstraram pouca disposição de falar. Mas talvez por estranharem as perguntas, conversaram um pouco.
Não queriam conversa por achar que eu fosse de alguma igreja, disposta a fazer  pregação ou convite para cultos. Ou que eu fosse da FASC, propondo levá-los para algum abrigo.
Por que estão na rua? Porque perderam, coisa a coisa,  trabalho, família. Ou porque não eram aceitos pelo grupo familiar, por não terem o que oferecer, por não encontrar trabalho pela falta de capacitação para os novos tipos de trabalho que surgiram. E porque, segundo eles, na rua formaram uma nova família, criaram outros laços, descobriram outras maneiras de se relacionar e viver. Por vezes, quando doentes, tomam banho nos abrigos municipais, mas geralmente não tem vagas. Acabam sendo atendidos no PAM, depois de receber higienização. Mas não gostam de se apresentar sem asseio para enfermeiros e médicos. Então, o Lago dos Açorianos ou o Espelho dágua do Parque da Redenção.
Abrigos não, dizem eles, pela rigidez de horários, pelos furtos ocorridos neles, pela separação de casais. Pela proibição do uso de álcool para eles, dependentes que bebem desde que acordam.
O que ganham é de todos: Comida, cigarros, bebidas, cobertas, lonas. As vezes cozinham num fogo de chão improvisado em quatro tijolos e madeiras que catam. Realizam pequenos trabalhos de jardinagem pelas redondezas, cuidam carros, ficavam na fila do posto para vender as fichas até se tornarem conhecidos. Não se metem com os usuários de crack nem  os aceitam no grupo.Os dois cachorros são de todos, e comem junto com eles o que comerem.
O que fazer? O que gostariam? O que os motivaria a sair da rua? 
Ah, disse-me um, uma casinha pequena para nós onze, um banheiro, tanque prá lavar a roupa, com lugar prá separar o lixo... Podia ser uma peça só. Mas que tivesse um pedacinho de terra prá plantar chás, como minha avó e minha mãe faziam antes da família vir para Porto Alegre. Um outro disse apenas - televisão. Divagaram um pouco sobre o que fazer, um deles disse-me que trabalhou mais de vinte anos na construção civil, mas que agora, que tem bastante emprego, não consegue trabalhar por causa do álcool e acha que nem saberia mais. Se tivessem uma casa iriam mesmo todos juntos? Disseram que sim.r como viviam antes? Nem pensar. Até podem sair da rua, mas para viver de outro jeito. Do jeito que aprenderam na rua.
Mas também disseram que a rua tem seus encantam, que vicia. que seria difícil mudar depois de tanto tempo. Viver como viviam antes? Nem pensar. Até podem sair da rua, mas para viver de outro jeito. Do jeito que aprenderam na rua.
Acreditam em organizações políticas? Política, para eles, é na época eleitoral, quando até "distribuem papéis".Dois votaram. Em Dilma, por sinal. Por causa do Lula. A vida deles melhorou com Lula? Sim, as pessoas compram mais, sobra mais lixo. Um deles tem um radinho de pilhas. E outro, tem um celular, mostrou orgulhoso um Nokia simples, mas que é o contato de todo o grupo.A filha de um deles comprou apartamento. Mas não tem lugar prá ele lá, o marido não quer por causa do álcool. Nem ele quer. Contato com as famílias? Praticamente não.
Me ofereceram um gole de vinho. Disse não poder beber, antibióticos. Agradeci, e disse-lhes querer deixar dinheiro para uma garrafa. Quanto? Três. Deixei uma nota de dez, que foi guardada sem discussão no meio de cobertores dobrados. 
Lembrei deles ontem, indo para meu plantão as sete da manhã,  pedi ao motorista do táxi fazer uma pequena volta e olhei o grupo. Dormindo encostados uns nos outros, uma montanha de lixo na volta. E pensei  como, em plena era da "minha casa, minha vida", poderiam eles conseguir sua casinha com uma peça grande e a hortinha de chás. Ou a dignidade a que todos os brasileiros, constitucionalmente iguais, teriam direito.