terça-feira, 26 de abril de 2011

Garantir o direito à memória e à verdade

Sobre a Colônia de Sacramento

Efeito colateral de minhas férias, cada dia durmo mais tarde. Certo que tenho aulas pela manhã, mas como a tarde fica livre...
Então fico zapeando a TV, e mesmo nos canais pagos (da restrita lista dos meus) não encontro muitas coisas "assistíveis".
Restam os livros. Neste momento, em plena página 84, atrevo-me a recomendar a tese de Fabrício Prado, Colônia de Sacramento - O Extremo Sul da América Portuguesa.
Para quem, como eu, é apaixonado por história, traz coisas bem interessantes.
Quem conhece sabe, a influência portuguesa é fortíssima e está presente nos azulejos, no nome das ruas, na arquitetura, nos fortes.
Sacramento fica no Uruguai, quase em frente a Buenos Aires. Atravessando o Rio da Prata, chega-se lá em menos de duas horas de barco.
Vale a pena conhecer, ou ao menos, ler o livro.

Estas horas:

terça-feira, 19 de abril de 2011

De novo, ameaça à idade penal

Sempre que posso, asissto TV. Sim, as emissoras abertas, as que  a maioria da população assiste. Quando posso, assisto capítulos das novelas globais, para me impressionar com a facilidade que os protagonistas tem para resolver seus problemas. Conto, e procuro anotar as mensagens explícitas pregadas como verdades absolutas. Sem contar que morar nas casas dos "pobres" das novelas resolveria o problema de moradia da metade da população brasileira.
De um tempo para cá, a Globo incluiu em sua programação pequenas declarações de religiosos sobre seus fundamentos. Claro, relligiosos domesticados. Não vi um babalaô explicar que sua religiosidade nasce da opressão, não vi padres progressistas, não vi os espíritas dos trabalhos voluntários nas vilas e favelas.
O que vi, e não gostei nada, foi  uma monja budista (vejam só!) recomendando PUNIÇÃO para os autores de atos infracionais menores de 18 anos. Seu argumento foi bisonho: Se os maiores são punidos, menores também devem ser, de acordo com seus crimes, Igual punição.
Na contramão da história, esta monja. Primeiro, porque os autores de atos infracional, menores de 18 anos, são punidos sim. Acontece que de nada adianta jogar adolescentes em presídios, misturados com condenados, as coisas são diferentes. Mas o que me passou foi uma idéia de punição vingativa ao invés de propor a ressocialização. Educação, profissonalização, tratamento, nada disto. Vendeta mesmo.Sem considerar que a  noção de tempo e as necessidades de ambos são  diferentes para adultos e adolescentes. Os motivos são geralmente os mesmos, mas podem (e devem) ser trabalhados de formas diferentes. Miséria, ausência de um sistema eficiente de educação, abandono, poucos cuidados, mas principalmente um: O capitalismo, que só enxerga o indivíduo como alguém passível de produzir lucro. 
Não somos mais cidadãos: Somos consumidores, e como consumidores temos direitos e garantias. Mas quem não consome? Quem não tem acesso ao paraíso do consumo? Se mesmo adultos não conseguem se equilibrar sem consumir todo o tipo de bugigangas que nos empurram, o que dizer de mentes em formação?
Não compactuo com a teoria de Lombroso, nem com outras mais disfarçadas, mas que procuram explicar  os atos infracionais em função da origem. Ninguém nasce criminoso.
E reduzir a idade penal servirá para aumentar a superlotação dos presídios, para expor ao contatp com condenados crianças e adolescentes ainda em formação. Ah, e sua maior função: Prender adolescentes tira de circulação aquelas pessoas que a ninguémm agrada ver em torno, esmolando, realizando subtarefas, mostrando sua miséria. Aliás, as vezes esta é a maior função.
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Amy. Simplesmente, ela.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Único culpado?

De terrível lembrança são todas as matanças que a imprensa nos traz vez que outra. Não falo das matanças autorizadas, aquelas do Iraque, Afeganistão, Palestina, Vietnã. Ou em tantos e tantos cantos do mundo quando os poderosos resolvem, por motivos ideológicos e econômicos invadir o que bem entendem.
Falo das matanças individuais, aquelas que sempre terminam em "suicídio" do atirador, depois de chacinar pessoas que, via de regra, nem conhecem. Crimes inexplicáveis, dor sem lógica, até pouco tempo atrás eram notícias que chegavam principalmente de países do norte.
Aqui pelo Brasil esta prática não  é usual. Talvez a neurose nacional, medos, recalques e o ódio de classe distorcido não fossem tão forte por aqui.
Mas uma procura rápida nos mostra  que não são os ricos, com acesso garantido à formação acadêmica, perspectiva de empregos razoáveis os que cometem as chacinas inexplicáveis.
São indefensáveis as chacinas.
Nossa indignação, nossa perplexidade, nossa raiva mesmo são absolutamente entendidas e justificadas.
São nojentas estas mortes, assim como é nojento o espetáculo macabro promovido pela mídia a respeito delas.
Desenvolvo aqui as mesmas indagações que encontrei resumidas num post do facebook: O último crime, praticado por um jovem adulto no Rio, foi cometido na escola que ele frequentou por anos, sem nunca ter sido notado por professores, orientadores, diretores, nenhum sintoma de loucura e doença. Sua família, idem. Adotado aos nove anos, a instituição que o abrigara, os técnicos que participaram deste processo de adoção, idem.
Crime indefensável, repito.
Mas deixo para reflexão a dúvida: Fosse ele tratado aos primeiros sintomas, tivesse ele sido minimamente observado por pais, profissionais, amigos, professores, este massacre teria acontecido?
A mim, o autor foi absolutamente culpado. Mas não o único culpado.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O mundo dos surdos

Começo amanhã um curso de LIBRAS.
Nunca antes de trabalhar onde estou tinha pensado nas dificuldades que os surdos enfrentam. Trabalhando com dois deles é que passei a imaginar o que deve ser um mundo sem ruídos, sem falas, sem música, sem conversas. Ao menos conversas como entendemos.
Optei pelo curso depois das tentativas dos dois surdos de se comunicar comigo. Aos poucos, pequenos sinais foram se incorporando èm nossa convivência diária. Claro que os sinais mais óbvios, como sim, não, eu, você, estes são simples, são óbvios. Construir palavras letra a letra é bem mais difícil, mas possível. Alguns gestos ´podem significar palavras, outras frases inteiras.
Escolas existem especiais para surdos. Aqui em Porto Alegre, as que conheço, são de primeiro grau.
E depois? 
Trabalhar com estes dois meninos abrem toda uma gama de indagações. Como incluir na educação convencional pessoas que se comunicam de forma diferente? Estarão os professores das escolas públicas capacitadas a ensinar adolescentes surdos? Como estes e outros surdos poderão, se quiserem, acessar cursos de nível superior? Apesar de leis que determinam determinado percentual para portadores de necessidades especiais em empresas, quais as vagas para surdos? E os salários? E como será a aceitação deles?
Li uma vez, não lembro onde, que um cego tem mais chances que um surdo. Convivendo com meus dois meninos começo a concordar com isto. 
Mas mesmo assim, continuo sem conseguir sequer imaginar a solidão das pessoas que vivem sem barulhos e rara comunicação com o resto do mundo.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Saúde em Porto Alegre: Um inferno em cada emergência

Meu trabalho na abrigagem inclui, eventualmente, acompanhar crianças ou adolescentes para atendimento médico. Há poucos dias acompanhei um menino com febre, dores de cabeça e vômitos a um Pronto Atendimento, o PAM 3, teoricamente um dos melhores do Estado. Chegamos por volta de 14 horas. Numa sala de espera totalmente lotada, os bancos de madeira insuficientes, as poucas cadeiras de rodas servindo como macas, esperamos por cerca de uma hora pela primeira triagem. Temperatura, pressão arterial, dois comprimidos antitérmicos  para uma febre de 39,3, e uma ficha para as 22 horas. 
E se fosse meningite? 
E se fosse uma outra "ite" qualquer, destas que necessitam intervenção imediata?
Muitos argumentos, idas e vindas e alguns gritos depois, consegui atendimento para as 17 horas. Felizmente, era uma amigdalite, daquelas que uma boa Benzetacil resolve.
Mas e as  inúmeras outras crianças febris,  chorosas, mães indo e vindo no sol à pique ou no sereno da noite? Conversei com um idoso, P.A. 170 por 110, repousando numa cadeira no saguão.
Enquanto esperava, perguntava. Atendimento de clínico geral? Duas ou três fichas por dia, distribuídas a partir das 7 da manhã, para quem esteve na fila desde as duas ou três da manhã. Exames, de um a cinco meses. Oftalmo? Não tem. Médico para tratar colunas vertebrais (não sei o nome)? Não tem. Psiquiatra? O alardeado serviço de pronto atendimento psiquiátrico só atende pacientes em crises agudas. Pneumologista, cardiologista, quaisquer outras especialidades, só a partir de encaminhamento do tal clínico geral que só tem as poucas duas ou três fichas comentadas acima. Vai daí que...
Equipes de saúde de família poderiam resolver boa parte do problema. Mas Porto Alegre deixou de investir cerca de dez milhões neste trabalho, porque este dinheiro evaporou. Não sei, perguntem para o prefeito. O ex ou o atual, que era vice do ex.
Certo que muitas cidades do interior tem como principal investimento em saúde a compra de microônibus para que seus doentes resolvam sua saúde em Porto Alegre, e isto estrangula mais ainda o sistema.
Para o imaginário popular é mais fácil responsabilizar médicos e trabalhadores do setor. Para o prefeito, promessas e explicações. para os profissionais da saúde, maus salários e péssimas condições de trabalho. E para a população, horas de espera, péssimos serviços oferecidos, e a convivência já quase rotineira com o desrespeito, o sofrimento e a falta de saúde.

Perderemos Muricy!

Meus receios estão se confirmando: Muricy está indo para o Santos.
Perder Muricy, que ficou soltinho, soltinho, não justifica.
Ah, este meu time...